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Blog da Juh D'Ewá

Orixás01 de setembro de 20269 min de leitura

Oxum: doçura, prosperidade e a firmeza escondida na água mansa

O ouro, o amor-próprio e a fertilidade em todos os sentidos

por Juh D'Ewá

Oxum: doçura, prosperidade e a firmeza escondida na água mansa

O sol da manhã, quando toca a superfície de um rio calmo, cria um espetáculo de cintilações que hipnotiza o olhar. É nesse brilho, que oscila entre o dourado e o prateado, que sentimos a presença de Oxum. Ela não é apenas a divindade da beleza ou da riqueza material, como muitos apressadamente definem. Oxum é a senhora da gestação de todas as coisas, a força que une as moléculas, a água que, embora mansa, é capaz de moldar a pedra mais dura com sua persistência silenciosa.

Sentar-se à beira de um riacho e ouvir o murmúrio das águas é um exercício de conexão com o mistério dessa Orixá. Ela nos ensina que a vida é fluxo e que a verdadeira prosperidade não reside no acúmulo, mas na capacidade de gerar. Seja gerando um filho no ventre, uma ideia na mente ou o afeto em um coração endurecido, Oxum é a mão que acaricia e a correnteza que limpa. É a fertilidade que faz a semente romper a terra e a doçura que torna a existência suportável.

Neste artigo, convido você a mergulhar nas profundezas das águas doces. Vamos desvelar as camadas dessa divindade que é, muitas vezes, interpretada de forma superficial, mas que guarda em seu espelho a verdade nua de quem somos. Oxum nos convoca ao autocuidado e à dignidade, lembrando-nos que o ouro mais precioso é aquele que brilha dentro de nós, forjado nas experiências de dor e superação que transformamos em sabedoria.

A Senhora das Águas Doces e o Poder do Ventre

Oxum rege as águas dos rios, das cachoeiras e das fontes. Diferente de Iemanjá, que detém o domínio sobre a vastidão salgada e misteriosa do oceano, Oxum é a água que sustenta a vida nas cidades e aldeias, a água que bebemos e que irriga as plantações. Nas tradições iorubás, ela é a rainha de Ijexá e Ijumu, mas sua influência atravessa oceanos, consolidando-se na diáspora como a mãe da sensibilidade e da diplomacia.

A fertilidade de Oxum ultrapassa o conceito biológico. Embora ela seja a protetora das gestantes e das crianças pequenas, seu domínio estende-se a tudo que precisa de tempo e nutrição para crescer. Quando desejamos iniciar um projeto ou quando buscamos harmonia em um relacionamento, é a energia de Oxum que invocamos para que o processo seja fluido. Ela é o sangue que corre nas veias, o líquido amniótico que protege o feto e o orvalho que nutre a folha.

Além disso, Oxum detém o poder sobre o Axé da criação. Conta um dos mitos que, quando os Orixás masculinos tentaram organizar o mundo sem a participação das divindades femininas, nada prosperou. A terra ficou estéril e a vida estagnou. Foi somente quando Oxum foi convidada e respeitada em sua importância que a harmonia retornou. Isso nos ensina que não existe progresso real sem a força do feminino, da intuição e da capacidade de cuidar.

A Doçura que não é Fraqueza: A Firmeza de Oxum

Um erro comum é confundir a doçura de Oxum com submissão ou fragilidade. Aqueles que caminham sob sua proteção sabem que o mel, embora doce, pode ser denso e difícil de limpar. A água mansa, se represada, acumula uma força devastadora. Oxum não precisa gritar para ser ouvida; ela utiliza a estratégia, o encanto e a paciência para alcançar seus objetivos. É a diplomata dos deuses, aquela que resolve conflitos onde a força bruta falhou.

A Estratégia do Espelho

O Abebé, o espelho ritualístico de Oxum, não serve apenas para que ela contemple sua própria beleza. Ele é uma arma de defesa e autoconhecimento. O espelho reflete a verdade, revelando as intenções de quem se aproxima. Para o devoto, o espelho de Oxum é um convite para olhar para dentro e reconhecer as próprias sombras e luzes. A firmeza dessa Orixá está em saber exatamente quem ela é, o que a torna inabalável diante das críticas ou das adversidades externas.

O Ouro como Símbolo de Valor Interno

Quando falamos que Oxum é a dona do ouro, não nos referimos apenas ao metal precioso ou ao dinheiro. O ouro de Oxum é o valor próprio. É a consciência de que nossa alma é um tesouro que não deve ser entregue a qualquer um ou desperdiçado em situações indignas. Prosperar no caminho de Oxum significa viver com dignidade, cercar-se de beleza (que pode ser a beleza de um gesto, de uma flor ou de uma casa limpa) e não aceitar menos do que o respeito que nos é devido.

Mitos e Preconceitos: Desmistificando a Vaidade

Muitas vezes, Oxum é reduzida a uma figura fútil, preocupada apenas com joias, perfumes e conquistas amorosas. Essa visão é um reflexo do machismo e da incompreensão das raízes litúrgicas. A "vaidade" de Oxum é, na verdade, um ato de culto à vida. Cuidar do corpo, adornar-se e buscar o prazer são formas de honrar o templo que habitamos. Nas religiões de matriz africana, a alegria e a estética estão profundamente ligadas ao sagrado.

Outro mito comum é a ideia de que filhos de Oxum são "chorões" ou instáveis. O choro, nesse contexto, deve ser visto como a purificação da água. A sensibilidade não é um defeito, mas uma ferramenta de percepção. O filho de Oxum sente o ambiente, percebe as entrelinhas e utiliza essa sensibilidade para navegar na vida. O que alguns chamam de instabilidade é, muitas vezes, a capacidade de adaptação — tal qual o rio que contorna os obstáculos em vez de bater neles até se esgotar.

"A água nunca discute com o obstáculo. Ela simplesmente o contorna e segue seu curso, mantendo sua essência intacta enquanto transforma a paisagem ao seu redor."

É preciso também desmistificar a ideia de que ritos para Oxum servem para "amarrar" alguém ou forçar sentimentos. O amor, sob o domínio de Oxum, é liberdade e escolha. Ela rege o amor-próprio em primeiro lugar. Um pedido feito a Oxum para o amor deve ser, acima de tudo, um pedido para que sejamos dignos de ser amados e que tenhamos a sabedoria para escolher parceiros que nos valorizem.

Práticas e Conexões com o Sagrado Feminino

Para aqueles que sentem o chamado de Oxum, a conexão pode ser estabelecida através de gestos simples e contemplativos. Não é necessário luxo para ser ouvido pela rainha das águas; a sinceridade do coração é o que realmente brilha. No entanto, é fundamental lembrar que práticas religiosas profundas, como o assentamento de orixá ou obrigações rituais, devem sempre ser conduzidas por sacerdotes experientes em uma casa de axé.

O Banho de Ervas de Oxum

Um banho com ervas como o manjericão, a calêndula ou pétalas de rosas amarelas pode ajudar a acalmar as emoções e restaurar o magnetismo pessoal. Ao preparar o banho, evite ferver as ervas; prefira macerá-las com as mãos em água fria ou morna, transferindo sua própria energia para o preparo. Enquanto faz isso, mentalize a limpeza de mágoas antigas e a abertura de caminhos para a alegria.

Segurança e Respeito: Antes de utilizar qualquer erva sobre a pele, verifique se você não possui alergias. Nunca jogue ervas quentes sobre o corpo. Lembre-se que o banho é um complemento espiritual e não substitui tratamentos médicos ou psicológicos. O descarte das ervas após o banho deve ser feito, preferencialmente, em um jardim ou vaso, devolvendo à natureza o que dela veio.

Criando um Espaço de Devoção

Você pode dedicar um pequeno espaço em sua casa para honrar a energia de Oxum. Uma quartinha com água limpa (trocada regularmente), uma vela amarela e, se possível, uma pedra como o citrino ou o quartzo rosa. Este não é um local para "fazer pedidos" incessantes, mas um ponto de ancoragem onde você para por alguns minutos para respirar, refletir sobre sua autoestima e agradecer pela vida. A simplicidade, quando acompanhada de fé, é extremamente poderosa.

Oxum e a Justiça Silenciosa

Embora Xangô seja o senhor da justiça e do fogo, Oxum possui sua própria forma de equilibrar a balança. Ela é a senhora da estratégia política nos mitos africanos. Quando Oxum se sente injustiçada ou vê seus filhos sofrerem, ela não ataca frontalmente. Ela retira a água, seca as fontes, torna a vida árida. Sem a água de Oxum, nada cresce, nada é lubrificado, as engrenagens da vida travam.

Essa faceta nos ensina sobre a importância da reciprocidade. Não se pode tirar tudo de uma pessoa ou da natureza sem dar nada em troca. Oxum protege os humildes e aqueles que são subestimados. Sua justiça é a do tempo: a água que goteja no mesmo lugar até que, finalmente, a rocha se parte. Ela nos ensina a ter paciência e a confiar que a verdade sempre vem à tona, assim como os objetos perdidos que o rio acaba por trazer à margem.

Trabalhar com a energia de Oxum exige honestidade emocional. Ela não aceita a falsidade. Para estar sob seu manto, é preciso estar disposto a encarar os próprios sentimentos, por mais difíceis que sejam. É preciso aprender a chorar quando necessário, mas também a enxugar as lágrimas e colocar o seu melhor colar para enfrentar o mundo com a cabeça erguida.

Para levar com você

A espiritualidade é um caminho individual, mas que se fortalece na coletividade e no respeito às tradições. Para integrar a energia de Oxum em seu cotidiano com responsabilidade, considere os seguintes pontos:

  • Cultive o amor-próprio: Antes de buscar o afeto alheio, certifique-se de que você é sua melhor companhia. O autoexame no espelho deve ser gentil e acolhedor.
  • Valorize a sua fluidez: Não tente forçar situações que estão bloqueadas. Aprenda a contornar os obstáculos com inteligência emocional, observando o momento certo de agir.
  • Busque orientação séria: Se você deseja se aprofundar na religião, procure um terreiro ou uma casa de confiança. O axé é transmitido através da convivência e do fundamento passado por zeladores de santo.
  • Cuide das suas águas: Literalmente e metaforicamente. Respeite a natureza e cuide da sua saúde emocional. Água parada apodrece; permita que suas emoções circulem.
  • Pratique a gratidão pela prosperidade: Reconheça o "ouro" que já existe em sua vida — sua saúde, seus amigos, seu teto. A gratidão atrai a abundância.

Oxum é a promessa de que, após a tempestade, o rio encontrará seu curso e a vida voltará a florescer. Que a doçura dessa mãe nos envolva, trazendo a clareza para enxergarmos nossa própria beleza e a firmeza para protegermos nosso tesouro mais valioso: a paz de espírito.

Se este texto tocou seu coração e você deseja compreender mais sobre as forças que regem sua jornada, continue acompanhando o blog. A espiritualidade é um mar profundo e os rios de Oxum são caminhos seguros para quem viaja com respeito. Caso sinta necessidade de uma orientação personalizada sobre sua caminhada espiritual, busque sempre profissionais e sacerdotes éticos que honram a ancestralidade. Que as águas de Oxum lavem seus caminhos. Ora Yê Yê Ô!

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